quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Achou!

“Minha mãe sempre foi uma criança adorável. Tão adorável que com 13 anos foi internada em um colégio de freiras em São Paulo.”

Mas essa é outra história, para um outro dia.
A história que eu vou contar agora aconteceu antes, bem antes.
Quando minha mãe tinha apenas 6 anos de idade.
Ela morava, com meus avós e meu tio, em um apartamento um tanto quanto grande, de muitos aposentos.
Meu avô tinha ido trabalhar, meu tio estudar e minha avó estava prestes a sair de casa para resolver problemas diários.
Antes de sair, deixou com a empregada diversas recomendações sobre minha mãe:
Não perca ela de vista”
Não deixe ela subir em nada”
Não isso...”
Não aquilo...”
“Sim, senhora!”
E ouvindo tudo isso, minha adorável mãe pensou ser aquela uma excelente hora para brincar de esconde-esconde.
Assim que minha avó colocou o pé pra fora do prédio, minha mãe foi atrás de algum lugar onde nem Holmes conseguiria encontrá-la. Procurou, procurou e finalmente se deparou com um armário no fim do corredor. Um armário onde se guardavam vassouras.
Mais do que depressa, ela entrou no armário, fechou a porta e começou a espiar por um buraco tudo o que acontecia, ou viria a acontecer.
Viu a empregada caminhando normalmente de um quarto ao outro como se aquele fosse mais um simples dia de serviço.
Dado certo momento, a empregada notou a ausência da criança.
Começou a chamar por ela. E nada.
Chamou mais uma vez. E mais uma. E outra novamente.
Até que sua calma e tranquilidade deram lugar ao desespero e a uma voz esganiçada.
Entrava freneticamente nos quartos, cozinha, banheiro, sala, banheiro, quartos, cozinha, sala, quartos, banheiro, cozinha... sempre chamando pela criança.
Quando percebeu que não, minha mãe não se encontrava em lugar nenhum, supôs que ela tivesse saído do apartamento.
Saiu pelas escadas chamando vizinhos, faxineiro, porteiro perguntando se não tinham visto uma menininha.
Como ninguém sabia de nada, a empregada aflita voltou ao apartamento para ligar para meus avós.
A brincadeira virou coisa séria (e muito séria).
Ao ver todas aquelas pessoas no apartamento, minha mãe ficou com receio de sair do armário. Quando viu, então, que meu avô também estava no meio, decidiu não sair nunca mais. Pronto. Resolvido.
Um tempo depois, percebeu que minha avó havia chegado.
Um frio tomou conta da sua barriga, afinal ela sabia o que a esperava.
Minha avó não era nenhuma flor que se cheirasse.
Quando meu avô decidiu finalmente que o melhor seria ligar para a polícia, todos concordaram, exceto ela.

Ela deu uma boa olhada a sua volta: porta, sofá, mesa, televisão, corredor, armário. Armário.
Pelo buraco, minha mãe podia sentir o olhar da minha avó penetrando. Olhos de quem diz “Eu sei que está aí!”
“Alguém olhou dentro do armário?”
Meu avô tentando ser razoável:
“E você acha que se ela estivesse lá dentro já não teria saído?”
Então, ela começou a ir em direção ao móvel. Sua sombra aumentando mais e mais até que...
Seus olhos se chocaram com os da minha mãe, que só conseguiu pensar em uma coisa para falar:
ACHOU!”

Foi a primeira grande surra de sua vida.